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O Amor

23/04/2017

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Evandro Colen

AMOR

Paixão arrebatadora que nos tira o folego, toma nossos pensamentos, aquece nossa alma, temos a vontade de ficar ao lado do amado o tempo todo, a sua ausência nos causa tristeza. No amor, as pessoas se misturam, se tornam uma só. Não é uma escolha, um raciocínio, uma lógica, é um encantamento irracional, químico e voraz.

O amor é um parâmetro para a ética, ela imita o amor, na falta do amor, a ética se espelha no amor, passamos a ter carinho, respeito, fidelidade, admiração e vários outros sentimentos e valores morais, antes, tudo isso sentíamos sem a necessidade de precisar pensar, agora, como a paixão arrebatadora passou, passamos a imitar os valores que regem o amor. Quando estamos no início do relacionamento não saímos sozinho porque não queremos ficar longe da pessoa amada, depois, não saímos para não deixa-la triste e chateada. 

Generosidade não é amor, generosidade é uma moral, na generosidade paramos para pensar, o ato vem precedido de um raciocínio. No amor, apenas doamos, a atitude é imediata, ela parte de um agir automático. Não basta fazer o bem (dar objetos), é necessário também ser bom (dar o sujeito). Pode alguém fazer o bem sem ser bom, porque esse bem é apenas um objeto, mas ninguém pode ser bom sem fazer o bem, porque esse ser bom é o próprio sujeito. Quando um político doa algo para alguém ou para alguma instituição, não o faz por amor, antes de tudo pensa se aquela doação vai se reverter em votos. Quem espera recompensa ou pagamento pelos objetos ou pelo amor que doou a uma pessoa ou a humanidade, não passa de um egoísta, um mercenário, ainda que essa recompensa consista apenas no desejo de reconhecimento e gratidão da parte de quem recebeu o benefício. 

Para Platão, o amor é EROS, que é desejo em grego. Você ama aquele ou aquilo que você deseja, quando o desejo acaba, o amor acaba. O desejo é pelo o que falta, você sempre deseja ter o que não tem, você deseja ser o que não é, ou você deseja e ama, e não tem, ou então tem, e ai, não ama mais.

Na nossa vida, quando estamos desempregados, só pensamos em como conseguir um emprego, e fazemos de tudo para realizar nosso desejo, mas assim que somos contratados, passamos a reclamar do salário, do chefe, da empresa, passamos agora a amar e desejar feriados, férias e menos trabalho. Nas empresas, metas são desejos, e assim que são alcançadas perdem o sentido, temos novas metas. Para atender os desejos de nossos filhos realizamos a maioria dos seus sonhos, fazemos os maiores sacrifícios, como por exemplo, comprar um Nintendo DS, o sonho de qualquer criança, que em pouco tempo vai estar jogado em um baú, agora o amor é pelo DSi. Presenteamos a nós mesmos com um iphone 5, ultimo modelo, porém, pouco tempo depois lançam o 5s, e ai o nosso desejo é no que falta. Todos nós temos desejos que pareciam amores eternos, esquecidos e desprezados em alguma gaveta, garagem ou até mesmo vivendo ao nosso lado. A mídia e o marketing são os grandes responsáveis por esse sentimento, eles nos fazem acreditar que o que não temos é o que precisamos, que ao passarmos a ter seremos mais amados, mais admirados e mais felizes.  Assim é o amor de Platão, desejo, é pelo que falta...

Aristóteles, nos apresenta um outro amor, Filia. Não é desejo pelo que falta, mas, alegria pelo que se tem, é a alegria na presença. É a alegria do computador ultrapassado, do carro que está na garagem, do celular desatualizado, alegria pela esposa e por tudo aquilo que foi seu sonho e ainda hoje te faz feliz, é amor pelo presente. Esse amor nos traz conforto, encantamento, acalma e eleva a alma, aplaca a nossa busca incessante. Para Platão, o amor está lá, está sempre a frente, para Aristóteles, o amor está no presente. Quando você ama na falta e na presença, você tem o maior amor do mundo.

Para Jesus Cristo, o amor é Ágape, amor pelo próximo, ou seja, qualquer um, não o nosso sonho, nosso desejo, mas qualquer um. No amor de Cristo o que importa é o amado, o amante se esforça para diminuir o sofrimento ou aumentar a alegria do amado, abre mão de algo seu em prol de outro. "Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes." (Marcos 12:30-31).

São Paulo, discípulo de Jesus, descreve sobre o amor em sua primeira carta aos Coríntios.

 "Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, se não tivesse amor, seria como sino ruidoso ou como címbalo estridente.

Ainda que tivesse o dom da profecia, o conhecimento de todos os mistérios e de toda a ciência; ainda que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tivesse amor, nada seria.

Ainda que eu distribuísse todos os meus bens aos famintos, ainda que entregasse o meu corpo às chamas, se não tivesse amor, nada disso me adiantaria.

O amor é paciente, o amor é prestativo; não é invejoso, não se ostenta, não se incha de orgulho. Nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor.

Não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade.

Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

O amor jamais passará.”

Gandhi, que pregava o amor através da não violência escreveu, “O amor é a força mais sutil do mundo”.

A caridosa Madre Tereza, além de nos deixar uma história de vida repleta de exemplos de carinho e amor ao próximo, ainda nos deixou algumas frases sobre o amor. “A falta de amor é a maior de todas as pobrezas”. “O senhor não daria banho a um leproso nem por um milhão de dólares? Eu também não. Só por amor se pode dar banho a um leproso”.

Uma vez fui perguntado qual seria o maior amor do mundo, de bate pronto respondi: - É o amor de mãe!

Resposta errada, proferiu o filósofo, para ele, o amor de mãe é imposto pela natureza, a vaca ama o bezerrinho, a gata ama o gatinho, a baleia ama seu filhotinho, ela não escolhe amar, ela ama, seu próprio instinto de mãe a obriga a amar, é um amor de posse. Poderia ser o amor de irmão, mas ele se encontra no mesmo patamar, ele é imposto, ele é de convivência obrigatória, ele desperta ciúmes e inveja. O amor de marido e esposa é um grande amor, mas não é o maior, pois é um amor de desejo e de posse, você escolhe porque sente atração física, além de saber que ela provavelmente formará com você uma família, te dará filhos e será sua companheira, este amor é o que tem maior possibilidade de se transformar em ódio. O amigo, esse sim, ele é escolhido, nada te obriga a gostar, é uma escolha livre, você gosta porque escolheu gostar, convive porque escolheu conviver, não precisa de contrato, pode ser homem ou mulher, o desejo é apenas de estar perto, de ter a companhia, e mesmo que privado dessa sensação, o amigo tem no coração a certeza da amizade, de poder sempre contar com escolhido a todo instante, com o amigo temos os maiores segredos e as melhores lembranças. Porém, quando a mãe, a esposa ou o irmão escolhem viver esse amor, passam a desfrutar do amor universal, passam a amar na falta e na presença, descobrem que a felicidade está na alegria do outro e na presença das coisas simples, e que o amor apesar de ser um sentimento abstrato, nos faz experimentar o seu fogo que arde e inquieta, ou a sensação da brisa que refresca e acalma.